Em junho de 2007 (exatos três anos atrás) tive a oportunidade de arrumar minhas malas e partir para o velho continente. Na busca de um sonho de criança, que era conhecer a terra daqueles que quando pequena, sempre ouvia as histórias. Meus bisavós, que vieram de navio pro Brasil, e que deixaram seu país para viver uma nova vida. Como muitos habitantes do meu estado, hoje o Rio Grande do Sul consideravelmente abrange um grande número de descentes italianos. No entanto, ir atrás de meu reconhecimento como cidadã italiana era meu objetivo. Um orgulho que sempre correu em minhas veias.
Como ir? Onde ficar? Como se manter? Eram várias dúvidas, mas que não me deixava nem um pouco amedrontada, e sim fascinada. Respirava Itália 24h por dia. Foi então, que minha irmã conseguiu contato de uma família italiana, no qual fiz o trabalho de "Au pair" (espécie de baby sitter) para duas meninas de nove e doze anos. Essa acaba se tornando a forma mais barata para quem quer morar em outro país, e de início não sabe pra que lado correr, ficar com famílias sempre acaba sendo a melhor opção em termos custo x benefício. Com a cara e a coragem, conversei com a família e em menos de um mês, juntei duas malas, meu passaporte e duzentos euros no cartão de crédito. E deixei meu Rio Grande e uma falculdade para trás.
Destino: Porto Alegre/ Rio de Janeiro/ Paris/ Bologna, foram mais de 18h dentro de aeronaves e em momento algum eu dormi. Estava ansiosa, queria logo conhecer aquela terra.
Desembarquei e a mãe da família estava a minha espera, de primeiro momento saiu algumas palavras em português, algumas em italiano. Meu cérebro não assimilava que eu estava em outro território, foi quando entrei no carro, ela ligou o rádio e eu ouvi um locutor muito empolgado dizer “Buongiorno a tutti, adesso ascoltiamo una bella canzione...” foi aí que eu me dei por conta, e por um minuto senti um aperto no coração. Mas pensando positivo, que me sairia bem.
E me saí, foram dois meses junto dessa família, de uma luta diária, sem falar português, aprendendo uma cultura nova, mas momentos muitos felizes.
Costumo contar três situações embaraçosas, mas, porém divertidas à qual presenciei.
Sempre que você for convidado a fazer uma refeição junto de uma família italiana, espere todos começarem a comer, e devemos iniciar SEMPRE pelo “primo piatto”, normalmente à base de massas, o “secondo piatto” à base de carne, peixe ou ovos e de acompanhamento uma tigela de verduras. Isso mesmo cada pessoa utiliza três pratos por refeição, aja louça.
Deve-se sempre esperar que todos terminem o primeiro, pra você começar a comer o segundo, isso me deixava desconfortável, pois as crianças sempre demoram pra comer, e eu tinha de ficar olhando pro meu prato, esperando elas acabarem, tudo em silêncio, sem sequer algum televisor ligado.
No supermercado, fui escolher algumas frutas, e como de costume peguei um saco plástico segurei em uma mão e com a outra ia selecionando-as, uma por uma. De repente, ouço um funcionário aos berros, dizendo que eu não podia fazer aquilo. Assustei-me e não entendi, pedi pra que me explicasse sem gritar. Foi então que ele me apontou outros sacos plásticos em formato de mão (como aqueles de tintura pra cabelo), para que eu colocasse e depois encostasse nas frutas. Fica a dica!
No último ano que morei na Itália, estava trabalhando em uma churrascaria e era uma tarefa um tanto difícil explicar para os italianos como que funcionava o tal “rodízio de carnes” quando falava que a carne vinha no espeto, era um tremendo susto. Mas é de se esperar, para um país que vive a base da dieta mediterrânea e os restaurantes são sistemas “a la carte”. Mas com simpatia, explicava de uma forma tranqüila e divertida como que funcionava, o semáforo da mesa (aquelas plaquinhas de mesa que diz se quer continuar ou parar de comer) sempre me salvava. Já sacava ele na mão e dizia “quando ainda quiser comer deixa verde, não agüenta mais, vermelho e não precisa aceitar tudo que passam aqui na mesa,ok!” nisso já roubava sorrisos de quem me ouvia e tudo ocorria muito bem.
Foram dias maravilhosos, experiência única, à qual levo pro resto da vida em minha memória e no coração. Espero um dia conhecer e lidar com outras culturas. Não tem nada mais gratificante do que viajar e adquirir tal conhecimento.
Arrivederci,
Camila Fernandes



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